quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O diálogo e a cultura ocidental


"Sem esses poucos gregos conversadores a cultura ocidental seria inconcebível."
- Jorge Luis Borges (24 de agosto de 1899-14 de junho de 1986)


Jorge Luís Borges. Foto de Humberto Rivas (1972)



"Cerca de quinhentos anos antes da era cristã deu-se na Magna Grécia a melhor coisa que a história universal regista: a descoberta do diálogo. A fé, a certeza, os dogmas, os anátemas, as preces, as proibições, as ordens, os tabus, as tiranias, as guerras e as glórias esmagavam o orbe; alguns gregos contraíram, nunca saberemos como, o singular costume de conversar. Duvidaram, persuadiram, discordaram, mudaram de opinião, adiaram. Talvez a sua mitologia os tenha ajudado, que era, como o xintó, um conjunto de fábulas imprecisas e de cosmogonias variáveis. Essas conjunturas dispersas foram a primeira raiz daquilo a que chamamos hoje, não sem alguma pompa, «metafísica». Sem esses poucos gregos conversadores a cultura ocidental seria inconcebível."


BORGES, Jorge Luis, "Prólogo". In. FERRARI, Osvaldo, Em diálogo com Jorge Luis Borges, vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p.5. 


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Feliz aquela que efabulou o romance







Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen


O verbo relatar





"No verão todos somos Xerazade. Damos por nós em conversas que se espreguiçam, sem cronómetro nem pressas de ver o fim, deslumbradas pela aparente falta de propósito, por não terem requerido, como é habitual nas outras estações, um fito, um lugar e um tempo exatos. Conversas que são, na sua quase ligeireza, uma espécie de navegação sem rumo, mas onde mais depressa, e não raro de um modo surpreendente para nós próprios, nos reencontramos. Não sei se é um privilégio dos caminhos do estio, se são os seus dias mais longos e os afazeres mais breves, ou se é a limpidez da praia e a frescura resguardada da varanda que, de repente, nos permitem recontarmo-nos uns aos outros, capazes subitamente de evocações, relatos e confidências. No verão percebemos que afinal temos história e que ela se declina numa pluralidade de pequenas histórias, no entrançado de sentimentos, coisas vividas ou não, sentidas com entusiasmo ou mastigadas com mágoa, mas que se tornam inseparáveis de nós. Afinal não somos afásicos como supomos, somando experiências em vertigem mas sem nada para dizer, fugindo do assunto quando o assunto é a vida e o que a qualifica, esbarrando às cegas em vez de nos expormos ao encontro. Afinal somos capazes de presença."
José Tolentino Mendonça, "Que coisa são as nuvens - O verbo relatar". E-Expresso Revista, 13 de agosto de 2016, p. 88.


Sinais de Fogo: um livro, um filme



Sinais de Fogo, romance de Jorge de Sena






Romance único de Jorge de Sena, parcela de um projeto romancesco de grande dimensão cuja designação genérica seria Monte Cativo, objetivando o recorte de uma geração nascida nos finais dos anos 10 do século XX, Sinais de Fogo abriga em si o despertar de um jovem, entre um grupo de amigos e familiares, para a sexualidade, a política e o fazer poético. De uma erudição e de um rigor literário inexcedíveis, aqui se fixa um olhar sobre o ano de 1936 português, tendo como pano de fundo o início da Guerra Civil de Espanha.


Transcrevemos o artigo de Carlos Câmara Leme sobre este romance:


Um romance de poesia em bruto

Publicado postumamente, longo, inacabado, "Sinais de Fogo" é um dos mais portentosos romances portugueses da segunda metade do século XX. Não há que ter medo das palavras: estamos perante uma absoluta obra-prima. 
A intriga do livro conta-se em poucas palavras. Um jovem estudante nascido no seio da média burguesia lisboeta dos anos 30, Jorge (quem ler "Sinais de Fogo" autobiograficamente passará ao lado da essência do romance), depois das traquinices próprias da adolescência com os seus colegas de estudos, vai, como era habitual, passar as suas férias de Verão à Figueira da Foz. A Figueira - com "diversas Figueiras pequeninas", "umas latentes no fundo do ser, outras evidentes" e em que "em cada uma delas é possível amar-se uma pessoa, por razões próprias deste mundo" - é o espaço geográfico central do livro, que regressará, mais tarde, à capital.
Jorge vai para casa do tio, Justino, um "bon-vivant", jogador inveterado de cartas ou no casino, "seguindo com os olhinhos a bolinha da roleta", que sem nunca ter conseguido seguir a carreira militar tinha tido um caso amoroso rocambolesco que o marcará para toda a vida. Por isso, em casa, tio e tia dormiam em quartos separados e Justino, quando podia, dava uma saltada ao quarto da criada mais apetitosa ou mais à mão.
Jorge não arriba à Figueira num dia qualquer: "Quando cheguei à Figueira, a estação era um tumulto de espanhóis aos gritos, com sacos e malas, crianças chorando, senhoras chamando uma pelas outras, homens que brandiam jornais, e uma grande massa de gente comprimindo-se nas bilheteiras."
Em Espanha rebentara a revolução. Jorge não se impressiona. Sai o mais rapidamente de casa dos tios à procura de Odette, que fora sua "de graça". Odette estava no Porto "por conta de um ricaço...".
Desanimado, Jorge vai à procura dos seus amigos de férias. Há personagens para todas as variações do ser e estar. Uma coisa, porém, os une: a descoberta do amor, da(s) mulhere(s), sejam elas prostitutas ou sérias, que começa logo no início do livro com uma orgia noctívaga, a libertinagem, a raiar o pornográfico.
À espreita - assumido também pela homossexualidade de Rufininho -, estamos perante um romance de iniciação: "Eu era uma criança. Os meus amigos eram umas crianças. Todos nós era como se tivéssemos afinal só dezasseis anos ainda. E não seria que quase todos os homens continuavam assim?"
Com a Guerra Civil de Espanha como pano de fundo, eis que aparecem em casa do tio Justino dois espanhóis. Contra a pardacenta ditadura do senhor de Comba Dão ("Está tudo depravado. Razão tem o governo em dizer que chegou a hora da limpeza. O Salazar, agora, vai pôr tudo na ordem"), Justino faz ponto de honra em protegê-los, preparar o salto, por barco, para Espanha, com a colaboração de uma personagem menor do romance, um funcionário do Partido Comunista Português, e a morte de um amigo que participa na fuga.
Porém, o eixo central do romance é a explosão de uma paixão: a de Jorge por Mercedes, que já se adivinhava no Verão anterior. É em torno dela que vai desaguar toda a poesia bruta (brutal mesmo) de "Sinais de Fogo".
"Eu queria-a minha, por que preço fosse"
Entregando-se a dois homens ao mesmo tempo, Mercedes, que está noiva dos amigos de Jorge, abre um sinal de fogo indizível que acompanhará Jorge: há uma obsessão e uma ultrapassagem a que Jorge não resiste. Mesmo que o Almeida a possuísse, Jorge remói, sangrando: "Que o diabo levasse tudo o que quisesse, todas as preocupações, todos os ciúmes, todas as palavras dadas por conta dele. Eu queria-a minha, por que preço fosse." Almeida podia ir com ela para a cama e, na mesma tarde, Jorge também se entregaria a ela.
Quando está com os amigos, ou vê o mar, ou quando pratica mais orgias - mesmo retirando delas prazer -, o seu ser (e o nada dele) são permanentemente transfigurados em efabulações constantes, umas de carácter filosófico-metafísico, outras de prosa poética que se lançam à poesia no sentido literal do termo: "Sinais de fogo, os homens se despedem, exaustos e tranquilos, destas cinzas frias. (...) um breve instante, gestos e palavras, ansiosas brasas que se apagam logo".
Não é verdade, não se apagam. Mesmo quando tudo acaba e Mercedes parte para o Porto - e Jorge se interroga, e nós com ele ainda hoje: "Sabes... a gente conheceu-se cedo de mais, ou tarde de mais" -, são "as ansiosas brasas" da poesia que ecoam. Em verso: "Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,/ recebo gratamente como se recebe/ não a morte ou a vida, mas a descoberta/ de nada haver onde um de nós não esteja."
Já em Lisboa, na companhia de Luís (o marinheiro que quer perder as graças no mar, não o da Figueira nem o da pesca do bacalhau, mas o mar do mundo), a voz de Jorge ecoa, agora em prosa, como se fosse um instrumento que, no meio de uma orquestra, envolvesse todo o tempo e espaço: "Depois, deitado na cama, sentia-me a arder (....) Não me sentia, porém, doente, nem sabia que estava vivo ou morto, nem isso tinha importância. Mesmo o dizer que eu 'estava' não é exacto, porque na suspensão de ser, que era a minha, o 'estar' não tinha sentido algum."
Fulgurante, Jorge de Sena, já no fim do romance, toca, subtilmente, mais uma vez no teclado: "Só me diriam alguma coisa outros versos, os livros que relatassem, mesmo imaginosamente, a vida."
"Sinais de Fogo" está entre esses versos. E a vida.
Carlos Câmara Leme, "Um romance de poesia em bruto", Sinais de Fogo na Série Y - Público.pt., 2009. 




O artigo de Orlando Nunes de Amorim, "Sinais de uma Guerra: Trauma e Crise Histórica em Sinais de Fogo, de Jorge de Sena", pode ser acedido AQUI. 




Sinais de Fogo, adaptação cinematográfica de Luís Filipe Rocha

Trailer do filme:





Ficha Técnica: 
Realização: Luís Filipe Rocha
Argumento: Luís Filipe Rocha e Izaías Almada
Produtor: Tino Navarro
Música: Enrique X. Macías
Ano: 1995
Género: Romance, Drama
Duração: 101’

Elenco:
Diogo Infante (Jorge)
Ruth Gabriel (Mercedes)
Marcantonio Del Carlo (Ramos)
José Airosa (Rodrigues)
Rogério Samora (Almeida)
Henrique Viana (Uncle)
Caroline Berg (Aunt)
Manuel Pereiro (D. Juan)
Alberto Arizaga (D. Fernando)
Joaquim Leitão (Party Officer)
Álvaro Correia (Matos)
Mário Redondo (Macedo)
Miguel Assis (Rufininho)
Glicínia Quartin (Aunt’s Mother)
Cristina Carvalhal (Maid)



terça-feira, 16 de agosto de 2016

Sinais de Fogo, de Jorge de Sena



Documentário "Grandes Livros", da RTP














Obra Aberta, de Umberto Eco



[...] quando Obra Aberta saiu, vi‑me envolvido num trabalho de ataque e de defesa que se arrastou por alguns anos. De um lado os amigos do Verri, o núcleo do futuro «Grupo 63», que se reconheceu em muitas das minhas posições teóricas, do outro lado os outros. Nunca vi tanta gente assim tão ofendida. Parecia que tinha insultado as suas mãezinhas. Diziam que não era assim que se falava de arte. Cobriram‑me de insultos. Foram anos de grande diversão."
Eco, Umberto, "Da parte do autor", Obra Aberta. Lisboa:Relógio D'Água, 2016, p.10.







"Nesta obra, Eco aborda a música serial, Joyce, a literatura experimental, a pintura informal, as estruturas temporais dos diretos televisivos, o novo romance, o cinema de Antonioni a Godard e a aplicação da teoria da informação à estética. A partir de uma série de pontos de vista diversos, elabora uma nova visão da arte contemporânea e dos modelos cognitivos que ela propõe, oferecendo uma espécie de metáfora epistemológica, que de modo autónomo apresenta uma definição do mundo próxima das novas metodologias científicas. 

Surgida no início dos anos 60, a obra alimentou sucessivas polémicas ao propor uma abordagem estética não tradicional. Obra Aberta, entretanto prolongada em Os Limites da Interpretação, permanece ainda hoje uma referência para as discussões sobre a linguística, a interpretação literária e o papel das vanguardas artísticas."

Relógio D'Água



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O verbo perguntar










"Mesmo se vivemos rodeados de perguntas, as mais preciosas são, porventura, aquelas que em silêncio nos acompanham desde o princípio, aquelas que se confundem com o que somos."

José Tolentino Mendonça, "Que coisa são as nuvens - O verbo perguntar". E-Expresso Revista, 6 de agosto de 2016, p. 88.